ACESSO RESTRITO

Caros leitores do Regional, assim como visto nas últimas edições deste jornal, estiveram presentes textos de minha autoria voltados para a editoria de cultura. Bem como fazia em outros órgãos de imprensa, continuarei a escrever sobre o que traduz a existência humana e as suas interferências. Música, teatro, literatura, costumes, teledramaturgia, religião e culinária são exemplos dessa modalidade jornalística. Frequentemente é cometido o enorme erro de achar que somente o clássico é cultura.

No entanto, não posso esconder ou ignorar que existe um conflito ideológico antigo que dividiu a cultura, sobretudo a musical, e tentarei explanar narrando como que isso aconteceu no Brasil. No século passado existiam as chamadas boates, que nada mais eram do que casas de shows sofisticadas. Nestes locais cantavam artistas como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Elizeth Cardoso, João Gilberto, Dolores Duran e Nara Leão. Resumindo, reinava o jazz e a Bossa Nova, e o público era majoritariamente de poder aquisitivo alto.

Por outro lado, entre o início e o meio do século XX as ruas e praças eram lotadas de sambistas e boêmios. Apenas um violão, bandolim ou cavaquinho já era o suficiente para passar a noite inteira fazendo serestas em rodas de samba. Neste movimento protagonizaram personalidades como Noel Rosa, Pixinguinha, Demônios da Garoa e Dona Ivone Lara. O som era gostoso e rendeu imemoráveis músicas que mais tarde integraram à MPB. Porém, apesar da qualidade musical de toda essa gente, só atingia o público de classe baixa. Expostas as situações, entenderemos agora porque isso acontecia.

Os empresários alegavam que só podiam fazer as atrações musicais em suas boates por causa da dificuldade que teriam de levar piano, violino, violoncelo e outros instrumentos para um ambiente aberto, pois poderiam ser danificados por chuvas e ventos. Mas ao mesmo tempo cobravam preços exorbitantes no valor da entrada, das bebidas e refeições. Verdade seja dita, isso não passava de uma desculpa esfarrapada para manter o monopólio do comércio artístico. Resultado, o jazz e a bossa nova tornaram-se propriedade privada da elite carioca e paulista.

Enquanto isso a querida boemia e o simpático samba esbanjavam popularidade. Eram movimentadas pela massa e contagiavam toda a classe média baixa, que correspondia cerca de 87% da população brasileira. Enquanto as pessoas mais pobres não tinham condição de frequentar as boates, as mais ricas consideravam uma desonra gostar e acompanhar as rodas de samba. Tanto é que os sambistas passaram décadas sendo taxados de vagabundos.

Mais tarde nasceu a indústria musical e as canções passaram a ser lançadas em CD’s, mas invés de ajudar, o auto custo dos discos de gêneros como bossa nova e jazz continuou sendo a pedra no caminho de muita gente. E para reforçar a compra do CD original como único meio de obter a música, surgiu a lei que criminaliza a cópia. Novamente as pessoas menos favorecidas ficaram restringidas de ter o acesso aos estilos.

Seria um enorme erro dizer que existe cultura de pobre e cultura de rico, enquanto que na verdade o que realmente existe são fenômenos e ações que expõe de alguma maneira a cultura geral. No entanto, infelizmente não posso afirmar que ela seja promovida de forma igualitária, pois ainda predomina o capital sobre o cultural. Todavia não pensem que propago esse discurso por apoiar uma linha ideológica socialista ou marxista, longe disso. Somente acredito que a cultura pode abrir muito mais portas do que o dinheiro. Porque enquanto uma possui todo um contexto histórico, social, filosófico e comportamental, o príncipe do samba Paulinho da Viola define muito bem ou outro quando canta: “Dinheiro na mão é vendaval”.

Que ironia meus caros, um “vagabundo” desdenhando filosoficamente da principal arma da elite jazzística.

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