Empresários desconfiam de melhorias na economia

Índices de confiança caem e mostram piora na expectativa de retomada na indústria, comércio e serviços

Na indústria, a confiança teve queda em 14 dos 19 setores pesquisados
(foto: Ricardo Almeida/ANPR)

O ritmo lento da atividade econômica e os atritos entre o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que levantaram suspeitas sobre a reforma da Previdência, derrubaram a confiança dos empresários brasileiros de forma generalizada. A confiança cai na indústria, no comércio e nos serviços em março na comparação com fevereiro, segundo dados divulgados ontem pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Na indústria, o índice de confiança caiu 1,8 ponto de fevereiro para março e ficou em 97,2 pontos, o mais baixo desde dezembro.

O Índice de Confiança de Serviços (ICS) caiu 3,5 pontos na passagem de fevereiro para março, descendo a 93 pontos. Com a queda, o indicador atingiu o menor valor desde outubro de 2018. Já no comércio, o otimismo dos empresários, medido pelo Índice de Confiança do Comércio (Icom) caiu 3,2 pontos no mesmo período, descendo a 96,8 pontos. Tanto serviços quanto comércio registraram o menor nível de confiança desde outubro do ano passado.

“O resultado da Sondagem da Indústria de março sugere que o setor continua em ritmo sonolento mesmo depois de ter conseguido equilibrar seus estoques no mês anterior”, disse o superintendente de Estatísticas Públicas da FGV Ibre, Aloisio Campelo Jr. O nível de confiança da indústria em março caiu em 14 dos 19 segmentos industriais pesquisados na sondagem feita pela FGV. O Índice da Situação Atual (ISA) recuou 1,7 ponto, para 97,1 pontos, após quatro avanços consecutivos. Já o Índice de Expectativas (IE) cedeu 1,8 ponto, para 97,4 pontos.

O indicador que mede o otimismo dos empresários em relação à evolução do ambiente de negócios nos seis meses seguintes exerceu a maior influência para a queda do IE no mês, ao recuar 3,7 pontos, para 100,6 pontos. “Além da fraca evolução do nível de atividade setorial, este resultado pode estar refletindo os níveis ainda elevados de incerteza econômica”, comenta Campelo. Entre fevereiro e março, a parcela de empresas que preveem melhora nos negócios recuou de 47,6% para 40,5%, enquanto a das que esperam piora subiu de 6,8% para 10,5% do total. O Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria ficou estável entre os meses de fevereiro e março, com 74,7%.

No setor de serviços, A FGV creditou a queda a um ajuste de expectativas. “O retorno da confiança de serviços para o patamar do fim do período eleitoral ainda parece estar mais associado a um ajuste das expectativas, que nos últimos dois meses já cedeu dois terços das altas observadas desde outubro. A novidade em março foi o recuo dos indicadores sobre o momento presente, sugerindo que o ritmo lento de recuperação ainda persiste nesse primeiro trimestre de 2019”, diz nota divulgada pela entidade.

A queda do ICS em março atingiu nove das 13 atividades pesquisadas pela FGV e foi verificada tanto nas expectativas para o futuro quanto na avaliação da situação corrente. O Índice de Expectativas (IE-S) encolheu 5,7 pontos, para 96,9 pontos, enquanto o Índice de Situação Atual (ISA-S) recuou 1,3 ponto, para 89,3 pontos. De acordo com a FGV, a retração do IE-S foi influenciada tanto pelo indicador que mede a demanda prevista nos próximos três meses como pelo indicador que apura a tendência dos negócios nos próximos seis meses. Ambos caíram 5,8 e 5,7 pontos, para 94,9 e 98,8 pontos, respectivamente. Em março, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) do setor de serviços subiu 1,5 ponto porcentual, para 83%.

Vendas fracas 
Para explicar a queda de 3,2 pontos no Icom, a FGV citou, em nota, uma “cautela” dos comerciantes em relação à perspectiva de vendas. “Os primeiros resultados da confiança do comércio em 2019 sugerem certa frustração e cautela dos empresários com o andamento do ritmo das vendas. As quedas dos índices, tanto de situação atual quanto de expectativas, reforçam o cenário de lenta recuperação do setor influenciado pelo elevado nível de incerteza e do arrefecimento da confiança dos consumidores”, diz o texto.

Em março, o Icom caiu em nove dos 13 segmentos pesquisados pela FGV. Além disso, houve piora tanto na percepção dos empresários com relação ao momento presente quanto nas expectativas. O Índice de Situação Atual (ISA-COM) caiu 4,2 pontos, para 89 pontos, menor valor desde maio de 2018 (88,9 pontos). Já o Índice de Expectativas (IE-COM) recuou 2,2 pontos, ao passar de 106,8 pontos para 104,6 pontos, patamar próximo ao observado em novembro de 2018 (104,8).

Com os resultados de março, o Icom médio do trimestre teve alta em relação ao trimestre anterior, porém em ritmo muito abaixo do observado no quarto trimestre de 2018. “A alta no trimestre decorre apenas da melhora do Índice de Expectativas. A queda do ISA-COM no trimestre e a recente calibragem nas expectativas sugerem que o ritmo de vendas não tenha ocorrido como era esperado para o 1º trimestre de 2019 e a velocidade da recuperação do setor deve se manter lenta”, diz a FGV.

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